Com base no pensamento sistêmico e a partir do convívio com sociedades tradicionais da África do Sul, o alemão Bert Hellinger, fundamentou, nos anos 80, uma nova abordagem no campo terapêutico, denominada Constelações Familiares. Por oferecer ferramentas rápidas e eficazes na resolução de conflitos pessoais e familiares e na abertura de novas possibilidades de convívio e de estruturação dos vínculos, as Constelações prontamente migraram para a área organizacional, como uma nova consultoria corporativa e, inclusive, jurídica, sendo hoje utilizadas por grandes empresas, sobretudo na Europa e EUA.
Assentando raízes no novo paradigma científico – longe do velho modelo cartesiano, que prioriza a parte em relação ao todo – esse campo de saber, denominado por Constelações Sistêmicas, continuou sua marcha e alcançou a área da Educação. Sua força, como fundamento e método, localiza-se na práxis e na postura fenomenológica, e sua rápida expansão advém de resultados empiricamente verificáveis, formando um corpo de conhecimentos que começa a ter validação científica na Alemanha, Bélgica, Espanha, México, Inglaterra, Holanda, dentre outros.
As Constelações Sistêmicas focam o sujeito como parte de um sistema de relações, (a família é o sistema básico) ligado, em intersecções, a outros sistemas. Fundamentam-se no princípio da ressonância mórfica, validado em pesquisas do biólogo Rupert Sheldrake, em Cambridge e Harvard. O campo mórfico tem sido percebido como um campo de memória de cada espécie ou sistema e Sheldrake sugere que neles estamos imersos sistemicamente, e que essas informações reverberam em nós, sem que tenhamos consciência disso.
Com essa base, Hellinger percebeu que fatos ocorridos com outros membros da família (e em sistemas organizacionais), inclusive em gerações passadas, mesmo que desconhecidos, podem, inconscientemente, afetar os descendentes, sucessores e todo o grupo, manifestando-se em dificuldades, conflitos, bloqueios, doenças, etc. Em duas décadas de observação, constatou que os sistemas são regidos por três grandes forças/leis e que o desrespeito às mesmas provoca, mais cedo ou mais tarde, tensões, que podem ecoar em um ponto do sistema ou em todo o conjunto. A primeira força é o princípio da inclusão: todos têm o direito a pertencer e o lugar de cada um, inclusive dos ausentes, deve ser reconhecido. A segunda trata da hierarquia: os sistemas obedecem a ordens específicas, onde os primeiros e os mais velhos devem ser respeitados pelos mais novos e por quem chegou depois. A terceira é a equivalência entre dar e receber e referenda um dos ícones do pensamento antropológico: pequenos presentes criam vínculos, grandes presentes criam conflitos.
Nas organizações, os efeitos dessas “leis” são observados nas dinâmicas de sucessão e liderança, fusões, contratações, demissões, promoções, capacitação, direitos trabalhistas, etc. Nas instituições de ensino, conhecemos bem as tensões e conflitos criados pelo descaso, precarização e mercantilização da Educação e as conseqüências daí decorrentes, em todos os níveis. O bulliyng é o maior retrato desse caos. Nesse contexto, as Constelações Sistêmicas têm várias contribuições a oferecer.
Mariane Franke-Grickch, professora primária alemã e Angélica Olvera, professora mexicana do ensino médio, foram as primeiras a aplicar os princípios das Constelações à Educação, criando um campo de pesquisa e prática denominado Pedagogia Sistêmica, com resultados surpreendentes na estrutura escolar, em sala de aula, na relação escola-família, no amadurecimento emocional e intelectual dos alunos, no enfrentamento do bulliyng, na valorização do professor. Em seguida, a Pedagogia Sistêmica entrou em escolas da Espanha, que hoje, como no México, são referência no treinamento de professores, dentro dessa abordagem. No Brasil, esses treinamentos já começam a ser ministrados.
Baseada na inclusão, a Pedagogia Sistêmica não faz confronto com outras metodologias, ao contrário, acrescenta-lhes novos recursos à prática educacional. Considera o sistema como um complexo de vínculos e dinâmicas, que suscita o reconhecimento claro dos sujeitos e papéis envolvidos, inclusive a constatação de que ninguém (alunos, professores, diretores, funcionários) está apartado de sua biografia, vínculos pessoais, contexto familiar, histórico, social e cultural de origem. Não apenas pais, como as famílias são vistas como parte da escola e professores deixam de assumir responsabilidades dos pais, facilitando essa percepção para os alunos. Ao clarificar as funções, papéis e a hierarquia, potencializa-se o sentimento de que todos têm um lugar (inclusão), e evita-se sobrecarregar e tirar a força de diretores, professores e alunos, e da própria educação. O mesmo para a equivalência entre dar e receber: o que cada um dá e o que cada um recebe na dinâmica da escola? Que parte cabe a cada um, enquanto responsabilidade, e como a escola faz esse reconhecimento?
Para educar com o coração, Marianne Franke-Grickch (Você é um de nós, editora Atman) e Angélica Olvera desenvolveram metodologias aplicáveis no dia-a-dia, que incluem ferramentas como o genograma (árvore genealógica), a autobiografia acadêmica, o trabalho com bonecos, visualização, focalização, jogos dramáticos, etc., como recursos cotidianos para enfatizar a inclusão, a hierarquia e a equilíbrio entre dar e receber. Mesmo que a escola não adote a Pedagogia Sistêmica, um professor pode usar essas estratégias em sala de aula, que requerem conhecimentos básicos sobre as Constelações Sistêmicas e a teoria da comunicação sistêmica.
Tal postura remete a uma compreensão bem diferente da usual e passamos a perceber a serviço de quais vínculos e questões sistêmicas cada um está agindo. Ou seja, através daquele aluno problemático, em qual lugar podemos chegar, coletivamente? A riqueza do pensamento sistêmico, com sua complexidade, está em abrir campos para novas possibilidades de reflexão e, sobretudo, ação.



